COLONIZAR A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UM DESAFIO PARA A EDUCAÇÃO MOÇAMBICANA
Por: Piter Alfredo Chele (piterchele@gmail.com)
A inteligência artificial chegou às nossas escolas antes mesmo de termos resolvido os problemas básicos da educação moçambicana. Essa realidade exige reflexão: será a IA uma ferramenta de emancipação ou uma nova forma de neocolonialismo? A resposta dependerá da forma como nos apropriarmos dela e de como a moldamos segundo nossas próprias realidades culturais e sociais.
A inteligência artificial trouxe novas formas de pensar e aprender. Contudo, há o risco de que respostas automáticas e mecanicistas sufoquem o pensamento crítico, transformando estudantes em consumidores passivos de soluções prontas. Se não houver mediação pedagógica, a educação corre o perigo de perder sua função essencial: formar cidadãos capazes de questionar, interpretar e criar.
Moçambique enfrenta desafios estruturais profundos na qualidade do ensino. Em províncias como Niassa, a escola disputa espaço com ritos de iniciação que afastam jovens da sala de aula por semanas ou meses. Além disso, os casamentos prematuros continuam a retirar meninas do sistema educativo aos 15 ou 16 anos, perpetuando desigualdades e fragilizando o futuro das comunidades. Esses factores culturais e sociais, somados ao uso acrítico da IA, podem agravar ainda mais a crise educacional, minando o interesse dos estudantes e enfraquecendo sua autonomia intelectual.
O impacto da inteligência artificial dependerá da forma como a utilizamos. Se apenas consumirmos sistemas externos, corremos o risco de sermos colonizados por algoritmos que não reflectem nossa diversidade. Mas, se soubermos colonizar a tecnologia, poderemos transformá-la em aliada da educação crítica e inclusiva. Colonizar a IA significa: Integrar línguas nacionais e tradições nos sistemas de IA; produzir conteúdos locais que alimentem algoritmos e plataformas; capacitar professores para usar a IA como ferramenta crítica, e não como substituto da reflexão; transformar a tecnologia em instrumento de inclusão e valorização cultural.
O desafio não é rejeitar a inteligência artificial, mas reivindicar o direito de usá-la como instrumento de libertação. A educação moçambicana precisa de tecnologia que dialogue com a sua diversidade cultural e que fortaleça o pensamento crítico.













Leave a Reply