O Presidente da República afirmou recentemente que “o diploma, por si só, não garante acesso ao emprego”, destacando a necessidade de repensar a forma como o país prepara os jovens para o mercado laboral. Esta colocação, contundente e realista, evidencia um problema que Moçambique insiste em ignorar: a urgência de mecanismos eficazes de orientação vocacional, elemento ainda pouco valorizado no contexto nacional. E, enquanto não reconhecermos que a Orientação vocacional é uma necessidade estrutural, e não um luxo, o país continuará a formar gerações que chegam ao mercado de trabalho sem clareza, sem preparo e, muitas vezes, sem esperança.
A ausência de uma orientação vocacional consistente em Moçambique produz impactos profundos. No plano individual, muitos jovens fazem escolhas educativas e profissionais pouco alinhadas com as suas capacidades, interesses e valores, o que aumenta a probabilidade de frustração, abandono escolar e mudança frequente de cursos ou caminhos profissionais. Sem apoio para explorar o seu potencial, inúmeros jovens acabam por seguir carreiras por influência familiar, pressão social ou mera falta de alternativas claras, comprometendo a construção de um projecto de vida coerente e satisfatório.
Do ponto de vista educativo, o sistema também não escapa às consequências desse vazio. A auseência de programas estruturados de orientação vocacional faz com que não haja correspondência entre a formação oferecida e as reais necessidades actuais do mercado de trabalho. Assim, formamos jovens diplomados,mas sem competências relevantes ou actualizadas, sem visão prática e sem capacidade para se inserir num mundo laboral em transformação, perpetuando o desemprego juvenil e o subemprego. Para o país, isso representa desperdício de recursos, pois muitos estudantes ingressam em cursos que posteriormente abandonam, prolongandoo tempo de formação e alimentando um ciclo de desemprego juvenil difícil de quebrar.
No contexto socioeconómico, o impacto é igualmente significativo. A falta de orientação vocacional contribui para a escassez de profissionais qualificados em áreas estratégicas, enquanto outras se tornam saturadas. Jovens mal orientados tendem a integrar-se tardiamente no mercado de trabalho e, quando o fazem, frequentemente ocupam posições que não potencializam as suas competências, reduzindo a produtividade global. Além disso, Jovens de zonas rurais ou de famílias com menos recursos são os mais prejudicados, pois têm menos acesso à informação e menos oportunidades de fazer escolhas consciêntes.
Por fim, o impacto emocional e social, talvez o mais silencioso e devastador, manifesta-se na forma como os jovens percebem o futuro. Sem orientação adequada, aumenta o sentimento de incerteza, desmotivação e ausência de propósito, factores que afectam a estabilidade emocional, o envolvimento comunitário e a capacidade de tomar de decisões conscientes. Como enfatizado por Savickas (2013) e Super (1990), a orientação vocacional é um instrumento essencial para que o indivíduo possa planear a própria vida de forma informada e realista; quando essa dimensão falha, a sociedade perde coesão, criatividade e capacidade de inovação.
É por isso que obras como o Dicionário de Profissões, de Edgar Magalhães, merecem destaque. Numa realidade onde muitos jovens terminam o ensino sem conhecer o universo de profissões existentes, este livro surge como um instrumento de consulta claro, acessível e necessário. aAo descreve profissões, competências requeridas, áreas de actuação e caminhos formativos e grupos de formação (A,B e C), o dicionário oferece aos jovens exatamente aquilo que o sitema ainda não lhes garante: informação estruturada para tomar decisões informadas.
A orientação vocacional não é um serviço complementare, é um pilar de desenvolvimento humano, económico e social. Moçambique não pode continuar a pedir aos seus jovens que escolham o futuro no escuro, a orientação vocacional é uma urgência nacional. O contributo trazido pelo Dicionário de Profissões alinha-se com as perspectivas de especialistas internacionais que defendem que a escolha profissional não deve ser um acto improvisado, mas um processo orientado, informado e reflectido.
Edgar Magalhaes Autor e Psicólogo Vocacional
Savickas, M. L. (2013). Teoria e prática da construção da carreira. In S. D. Brown & R. W. Lent (Eds.), Desenvolvimento e aconselhamento de carreira: Integrando teoria e investigação na prática (2.ª ed., pp. 147–183). Wiley.
Super, D. E. (1990). Uma abordagem ao desenvolvimento de carreira ao longo da vida e em múltiplos papéis. In D. Brown & L. Brooks (Eds.), Escolha e desenvolvimento de carreira (2.ª ed., pp. 197–261). Jossey-Bass.











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