Por Joyce Juju Michaque
O sol ainda nem tinha nascido quando Ernesto ligou o motor do seu táxi de livre trânsito. Era um carro simples, amarelo já meio gasto pelo tempo, mas para ele era mais do que um veículo.
Era sustento, era rotina e, de certa forma, era companhia.
As ruas da cidade ainda estavam vazias. Apenas o silêncio e o vento frio cortando o ar. Ernesto gostava desse horário porque parecia que o mundo ainda estava em modo de espera, sem pressa, sem buzinas, sem correria.
No retrovisor, ele sempre repetia a mesma frase para si mesmo:
“A vida é cmo o trânsito: quem corre demais pode nunca chegar.”
Mas naquele dia, o movimento cresceu rápido. A pressa tomou conta da cidade. Buzinas, gritos, ultrapassagens perigosas. Cada rosto que entrava no carro carregava urgência, como se cinco minutos decidissem o destino do mundo.
No fim da tarde, Ernesto pegou sua última corrida.
Um jovem, talvez com pouco mais de vinte anos, entrou apressado:
–Tio, acelera, por favor. Estou atrasado.
Ernesto respirou fundo.
–Vou levar-te, mas rápido não significa seguro.
O jovem riu.
–Tio, todo mundo vive correndo. Só o senhor anda devagar.
Ernesto olhou o rapaz pelo retrovisor e respondeu com calma:
— Já levei muita gente para o hospital viva. E já transportei outras… que nunca mais voltaram. Toda pressa tem um preço, e algumas não aceitam pagamento de volta.
O rapaz ficou em silêncio.
Quando chegaram ao cruzamento principal, um carro surgiu em alta velocidade, furando o sinal vermelho. Ernesto freou bruscamente. O coração do jovem quase saltou do peito.
O silêncio pesou.
–Se eu tivesse acelerado só um pouco mais… – murmurou Ernesto.
O jovem engoliu a seco e, pela primeira vez, percebeu que a vida não era tão garantida quanto imaginava.
Ao sair do táxi, virou-se e disse:
— Obrigado, tio. Hoje aprendi que viver não é correr, é chegar.
Ernesto sorriu.
Ligou o carro de novo, mas antes de avançar, fez sua última reflexão:
«No trânsito e na vida: pressa mata, cuidado preserva. A vida é dom, e cabe a nós protegê-la».















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