De gota a gota, o velho Luchiringo inundou as tradições e saturou as drenagens, numa urbe onde já escasseiam gotículas para jorrar nas torneiras. Falou o idioma da abundância numa terra de estiagem. As palhotas, essas viveram momentos de terror, onde a busca pelos bens, era pelo maior de todos, a vida.
Gente de todas esferas, aos prantos, nenhum manto lhes cobria, se não os pingos que faziam se de tectos sobre as cabeças, quando não fossem trouxas, por ainda acreditar no velho Luchiringo.

Olhares assistiam aquele filme sobre o Luchiringo, com a mesma curiosidade de há anos. Nada de novo, com personagens de sempre, ainda assim, era matéria para o horário nobre; seus mimos continuam merecendo audiências; uma curta metragem que ainda gera engajamento, os selfies, monetizam para os influencers, quanto para os de acção de benevolência.
Na sua fúria, Luchiringo galgou a ponte, deixou de ser caminho e passou a ser fronteira. Onde antes o quotidiano atravessava sem pensar, crianças a caminho da escola, vendedores empurrando sonhos em carrinhas, bicicletas, bacias improvisadas, famílias regressando a casa agora só há água espessa, suja, silenciosa e ameaçadora. A ponte submersa não interrompeu apenas a circulação; suspendeu vidas.

À beira do rio, os moradores observam em silêncio. Há quem segure sacos, quem aperte crianças contra o peito, quem fique parado, como se esperar pudesse baixar o nível das águas. O olhar é de quem perdeu o chão sem sair do lugar. Não é apenas a impossibilidade de voltar para casa, é o medo de não saber o que ainda resta dela.
Para muitas famílias, o regresso foi adiado sem data. Casas ficaram do outro lado, algumas engolidas pela água, outras cercadas por um rio que decidiu ocupar mais espaço do que lhe era permitido. Os bens domésticos, construídos aos poucos, com esforço diário, tornaram-se lembranças molhadas. Panelas, colchões, documentos e mercadorias misturaram‐ se à lama, nivelados pela força da corrente.

Há revolta contida, mas sobretudo há cansaço. Cansaço de quem vive à mercê das chuvas, de quem depende do comércio informal e vê no alagamento não apenas uma tragédia natural, mas um golpe directo à sobrevivência. Cada dia sem atravessar a ponte é um dia sem vender, sem trabalhar, sem garantir o amanhã, que o hoje sempre irá cobrar.
Entre os moradores, surgem histórias sussurradas: famílias divorciadas em margens opostas, idosos que contam a décor a estória e crianças que desejam navegar nas suas águas. A ponte, agora visível ao microscópio, transformou-se num símbolo duro de isolamento, a bandeira do estado de sítio, de como num instante tudo pode mudar ao afogar da ponte.

Nenhuma presença traz alento ou disfarce, nenhuma intervenção, torce o hábito e as manias do velho Luchiringo. Mas toda assistência é recebida com gratidão silenciosa, ainda que a esperança caminhe com cuidado, como quem teme esgotar.
Depois das audiências e do anúncio da época do unhago, o velho Luchiringo seguirá o seu curso, com o espírito de missão cumprida. Trará de volta a ponte, mas com as marcas na memória de quem ficou à margem, nos passos interrompidos, na sensação amarga de olhar para casa e não conseguir alcançá-la. Porque, hoje, não foi só a ponte que ficou submersa. Foi também a certeza de um regresso, ainda nesta ou na próxima época, e sempre afogado pela força das águas, em mais uma memória do velho e rabugento, Luchiringo.
𝐀𝐧𝐚 𝐀𝐧𝐝𝐫é 𝐌𝐢𝐭𝐚𝐰𝐚
𝐋𝐞𝐨𝐧𝐞𝐥 𝐀. 𝐌𝐮𝐜𝐚𝐯𝐞𝐥𝐞















Leave a Reply