Quando o milionário da zona faleceu, semeou-se um luto infindável na aldeia, que abalava a todos, sobretudo as mulheres que dependiam das suas moagens, que as aliviavam do martírio de usar o pilão para processar e moer o milho. O luto abalava profundamente os homens também, pois dependiam da sua barraca para a compra de produtos manufacturados e da frota das suas motorizadas, que lhes serviam de chapa que lhes levava à vila, sobretudo em situações de doença e atendimento às mães gestantes.
A sua barraca e os meios de transporte, mantiveram-se encerrados até à celebração do alubahini, cerimónia em que participam os familiares mais próximos, os filhos e as viúvas do finado. É o dia de divisão de bens; dia em que as viúvas tiram o luto e recebem a sua libertação para a vida normal. Passados os quarenta dias, todos os familiares, inclusive aqueles que o acusavam de feitiçaria, vieram das suas origens para testemunhar este momento.
O miliário tinha cinco esposas, quinze filhos e vinte netos, todos viviam naquela casa, como se de família alargada se tratasse.
Nessas zonas matrilineares dos ajawas, é comum as esposas do mesmo homem partilharem único espaço; são irmãs por adopção obrigatória. A única coisa que as separa é a escala de dias em que o maridão deverá permanecer na casa de uma. Apesar de serem apenas paredes as que as dividem, as outras quatro deverão, escrupulosamente, aguentar com o intervalo que pertence a outra. Na hora de refeição, cada uma leva a sua comida, seus filhos, e juntam- secomo se fosse banquete familiar. Entretanto, o homem só e só deve comer a merenda da mulher em escala. Até os filhos mais velhos recusavam-se a abandonar a casa, pois emboscavam a riqueza do pai.
Da zona de Nˈkalapa veio o Sheik Bonomadi Yussunˈna, tio mais velho do finado, para orientar o ritual de libertação das viúvas e partilha de bens. O filho mais velho do finado era o tagarela da cena em defesa da sua mãe. Exigia, mesmo antes da divisão, a maior parte da herança. O Sheik Yussunˈna começa o acto tecendo um conjunto de sermões, para dar a entender o sacrifício do irmão na obtenção daquela riqueza!
– A minha mãe é a única pessoa que se sacrificou e conhece o segredo desta riqueza! -Gritava o tagarela.
O Sheik Yussunˈna decidiu começar pela divisão das roupas, tendo atribuído grande parte aos tios e irmãos do finado. Os cobertores de reserva foram entregues à mãe – sogra das cinco, avô dos quinze e bisavô dos vinte.
Pediu para que abrissem a barraca. As chaves estavam na posse da mulher mais nova. Assim o fizeram; viram que a mercadoria estava a esgotar-se, pois o finado deixara a vida nas vésperas do reabastecimento. Orientou para que fossem perfiladas as cinco motorizadas ali no pátio. Igualmente, mandou abrir as duas moagens – uma de pilar e a outra de moer. Chamou ao sobrinho mais velho, aquele tagarela, e sugeriu que, junto da sua mãe escolhessem o ques lhes convinha entre os imóveis e móveis ali expostos. Ei-lo que exige que as duas moagens e uma motorizada passem a favor da sua mãe, alegando ser ela o segredo da riqueza, o que não agradou à maioria. Enfurecido, decidiu abandonar o recinto e tirou dali a mãe forçosamente.
O Sheik Yussunˈna cedeu a barraca à mulher mais nova por ter sido a última gestora da mesma antes da morte do milionário. Determinou que uma moagem passasse para a mais velha e, ao filho mais velho, uma motorizada, com vista à evitar conflitos familiares. Uma moagem ficou com a mãe do finado, ele levou uma motorizada e as outras três foram entregues às três viúvas. A divisão foi consensual para os presentes, e decidiram libertar as viúvas do luto. Terminada a cerimónia, aquele ancião, aconselhou a aprimorar-se o diálogo entre as viúvas. Dali, foram entregues às suas famílias, excepto a mais velha e a última, que tinham filhos menores.
Dois meses depois do desiderato, a mulher mais nova, aquela que ficou com a gestão da barraca, foi queixar-se ao cunhado Sheik Yussunˈna, sobre as ofensas, abusos e blasfémias que o tagarela encomendava a ela e aos seus petizes. Disse até que aquele jovem arrumava feitiços contra ela, razão pela qual a barraca ia rumo à falência. O conselho de anciãos decidiu reunir a todos para analisar a situação.
– Essa cabra sabe onde está o dinheiro do nosso pai. A barraca do nosso pai passou a local de encontro entre ela e os seus namorados. Não é digna de herdar a riqueza que a minha mãe construiu durante trinta anos. Queremos dinheiro do nosso pai! Insistia o tagarela.
As palavras do tagarela flagelaram aos presentes. Cada um envergonhava-se do outro. Os anciãos estavam boquiabertos perante as palavras do sobrinho mais velho.
– Quando começámos o negócio em 1980, fomos a Mˈbuyo, limpar a campa do meu sogro. Levávamos farinha, sangues e águas à mistura. Lembro-me que fomos de noite e nus. De lá até a morte, ele frequentava sozinho aquele local. Isso dói-me! É lá onde guardamos o cordão umbilical do meu filho mais velho. Isso dói-me! Disse a mais velha em desabafo.
– As cinco motorizadas representam as vezes que abortei cujos fectos lá jazem na companhia do avô. As moagens são resultado dos meses que fiquei sem menstruar. Essa barraca é a alma do meu sogro – o guardião desta riqueza que hoje destruístes! Isso dói-me! Continuou choramingando.
Sheik Bonomadi Yussunˈna, enfurecido depois das declarações do seu sobrinho e da cunhada, decidiu que os anciãos, incluindo essa cunhada, fossem a Mˈbuyo visitar a campa do pai, para venerarem aos antepassados. Logo às dezoito horas, Sheik Yussunˈna, a viúva e o nˈgaliba local, foram à campa onde jazem os restos mortais do pai. Deixaram a viúva sozinha, a uma distância, para dirigir as preces enquanto nua. Uma hora depois, a viúva regressa carregada de panela de barro contendo águas e sangues à mistura, facas e agulhas enferrujadas.
– Eis aqui o tesouro deste ventre! Sequela dos meus abortos e das minhas menstruações. Eis o ventre desta guerra de gerações. Gritava, choramingando a viúva, regressando das preces.
Preferiram pernoitar em Mˈbuyo, para no dia seguinte irem à aldeia mostrarem e comunicarem aos restantes o tesouro encontrado naquela expedição. Após mˈbopezi do nˈgaliba, as seis horas do dia seguinte decidiram voltar à casa, munidos daquela panela de barro, contendo as nuances daquela fortuna. Na ladeia, a família estava reunida naquela à sombra de nˈzôló, aguardando achegada dos anciãos.
– Eis aqui o tesouro deste ventre! Sequela dos meus abortos e das minhas menstruações. Eis o ventre desta guerra de gerações. Gritou a viúva, em desaforos diante das rivais.
– Eis aqui o cofre que o irmão enterrou na campa do nosso pai! Sinuou Sheik Bonomadi Yussunˈna.
O império cedeu! Os céus rasgaram-se; os ventos sopraram envergonhados. O sol assustou-se! Acabavam de arder as duas moagens e as cinco motorizadas griparam. Durante o dia, nem se quer um cliente visitou a barraca. Morreu uma fortuna, apagou-se a história de um reinado que durou três décadas.
Cê – Ndogo Malinga













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