Biografia de N’fano Wa Dunia

HOMENAGEM

Biografia de N’fano Wa Dunia

Bacar Ali Cuine, nome oficial de N’fano Wa Dunia, que conheceu o mundo a 01 de Janeiro de 1949 e o distrito de Marrupa, na província do Niassa, como porta de entrada. Cresceu num ambiente onde a tradição oral, a música e os rituais comunitários eram parte fundamental da vida social, guiada por Ali Cuine e Mariuaca Linga, seus progenitores. Embora solteiro nos ofícios, vive há 37 anos em união marital com Luciana Mauindo, sua companheira de longa data e apoio constante, com quem tem seis filhos, e em toda sua vida, respira arte.

Dono de uma voz tremenda e dedos finos na guitara ou em qualquer outro instrumento tecido com material local, ainda jovem, aventura-se no mundo da música e em 1966, desponta como um talento a partir do distrito de Mecula. Desde cedo demonstrou aptidão para a música tradicional, inspirando-se nas celebrações locais, nos saberes transmitidos pelos mais velhos, nos conflitos sociais, entre outras situações da vida. Em 1975, enquanto Moçambique ficava independente, abraça Mandimba, fixa-se no Posto Administrativo de Mitande, bairro de Masserema, e de lá, espalha o perfume que encantou o mundo aos dias de hoje.

Ao longo dos anos, aperfeiçoou-se no género musical tradicional conhecido por Thakare, expressão artístico-cultural que representa uma forma tradicional da língua Emakua marcada por ritmo, movimento, espiritualidade e mensagem social. Para ele, o género Thakare tem origem da língua Emakua e simboliza mais do que um género, pois é também exaltação da paz, promoção da unidade e reconciliação entre os povos africanos e fortalecimento da harmonia entre os moçambicanos.

As suas músicas transmitem uma forte mensagem de gratidão e respeito aos guerrilheiros da Luta de Libertação Nacional, especialmente aos antigos combatentes, reconhecendo o seu papel na conquista da liberdade nacional.
O legado de N’fano Wa Dunia transcende a dimensão artística, é um símbolo de resistência cultural, um pilar da identidade macua, um educador comunitário, um agente promotor da paz e unidade, um guardião da memória histórico-cultural do Niassa, fazendo da sua obra, um património imaterial que Moçambique deve preservar e valorizar.

Encantou o público com suas participações em quase todas as edições do Festival Nacional da Cultura – FNC (Gaza-2008, Manica-2010, Inhambane 2012, Nampula 2014, Sofala 2016, Niassa- 2018 e Matola-2023), desde o extinto Festival de Música e Danças Tradicionais em 2007, representando dignamente o distrito de Mandimba e a província de Niassa. O seu percurso rendeu-lhe diversas homenagens e certificações de participação, diplomas de honra, títulos honoríficos, reconhecimento formal das autoridades culturais.

Granjeia simpatia e prestígio entre os fazedores das artes, pela autenticidade e paixão pelos instrumentos tradicionais e vocação para a música, mesmo sem rendimento. Com uma voz única e instrumentos com capacidade de manuseio que não estão ao alcance da maioria, sua actuação e presença carrega a ancestralidade e poder espiritual que encanta os apreciadores do ritmo tradicional. Ao longo do tempo, soube reinventar-se, razão pela qual, Niassa confiou nele e seus trabalhos, a representação em mais de 5 edições de festivais nacionais.

Hoje N’fano Wa Dunia é visto como um mensageiro da cultura tradicional e como guardião da memória colectiva do Niassa, que, entretanto, clama por um amparo social, tanto pela condição de saúde que exige muita atenção quanto pela precariedade da vida social, de muita carência. Pelo mérito e prestígio que goza nas comunidades e nos meandros da música tradicional, da cultura de Niassa no geral, que muito deu nos maiores palcos do país, por estes e mais factos, a Revista Uphile, presta a devida homenagem nesta edição, na esperança de despertar a devida atenção para que entidades e pessoas singulares, possam solidarizar-se com o ícone da música tradicional em Niassa.

Texto de Matias Constâncio Pio (Adaptado- Revista Uphile)

@Direitos de imagem reservados