“Eles Dizem que Vais Ganhar… Mas É o Jogo que Está a Ganhar de Si” Por Edgar Magalhães, psicólogo e escritor

Quem não gostaria de ganhar dinheiro fácil? Quem nunca sonhou, pelo menos uma vez, em apostar uns simples centavos e transformá-los em milhões? A promessa é tentadora rápida, acessível, quase mágica. É assim que os jogos de azar conquistam o imaginário humano há séculos. A ideia de que a sorte pode mudar o destino em segundos seduz milhões de pessoas em todo o mundo. A primeira vista, jogar parece inofensivo: uma distracção, um passatempo, uma emoção momentânea.

Mas, por detrás das da adrenalina nas apostas, dos anúncios cativantes e das plataformas on-line que prometem riqueza fácil, esconde-se um perigo muitas vezes silencioso- um vício que aprisiona, corrói e, em casos extremos, conduz à tragédia do suicídio.

O jogo tem um encanto quase mágico. Basta um pequeno ganho para acender a chama da esperança. É nesse instante que o cérebro liberta dopamina, a substância responsável pela sensação de prazer e recompensa. Cada vitória, por mais pequena que seja, reforça o desejo de continuar. E assim, o jogador entra num ciclo viciante: quanto mais perde, mais acredita que pode recuperar; quanto mais ganha, mais quer repetir a sensação. O problema é que, com o tempo, o jogo deixa de ser diversão e transforma-se numa necessidade, num impulso difícil de controlar.

A partir desse ponto, as consequências multiplicam-se. As contas acumulam-se, as dívidas crescem subitamente, o sono desaparece e a ansiedade toma conta. Muitos jogadores vivem em constante tensão edepressão, tentando esconder a situação da família, dos amigos e até de si próprios. A vergonha e o medo do julgamento social fazem com que se isolem. Quando a realidade financeira e emocional colapsa, surgem sentimentos profundos de desespero e impotência. É neste abismo psicológico que muitos perdem a esperança e o risco de suicídio torna-se assustadoramente real.

Estudos realizados em vários países confirmam que a taxa de suicídio entre jogadores compulsivos é muito superior à da população em geral. Isto não é coincidência: é o resultado de um sofrimento silencioso, de um vício que destrói não apenas o património, mas também a auto-estima e a vontade de viver. E, em Moçambique, esta realidade ainda é pouco discutida.

Enquanto a publicidade das apostas desportivas e dos jogos on-line cresce a um ritmo vertiginoso, faltam medidas eficazes de prevenção e acompanhamento. É preciso questionar a ética de campanhas que romantizam o jogo, apresentando-o como uma forma moderna de lazer ou de realização pessoal. Basta ligar-se a qualquer canal televisivo e, em poucos minutos, é bombardeado por anúncios que exaltam a emoção de apostar, o “prazer” da vitória e a falsa ideia de controlo. São campanhas elaboradas, com rostos conhecidos e slogans apelativos, que transformam o jogo numa espécie de estilo de vida aspiracional.

Às vezes, a presença destas publicidades é tão constante que chega a ser sufocante: a cada intervalo de programa televisivo, lá estão elas, repetidas até à exaustão.

Nas redes sociais, a situação é ainda mais preocupante. Influenciadores promovem plataformas de apostas como se fossem produtos de moda, normalizando comportamentos que, para muitos, podem ser destrutivos. Jovens, ainda sem maturidade emocional ou financeira são atraídos por promessas de ganhos rápidos e histórias de sucesso que raramente correspondem à realidade, talvez também motivados pelo desemprego. E quando a sorte falha, como quase sempre acontece, resta o vazio, a vergonha e a frustração.

A verdade é que, para muitos, o jogo não traz liberdade. Traz dependência, solidão e, em casos extremos, tragédia.

Há que reflectir: os casos de suicídio têm aumentado assustadoramente nos últimos tempos. Será apenas coincidência? Ou estaremos a assistir, silenciosamente, às consequências de um sistema que promove o jogo como sinónimo de sucesso e felicidade? Quando a sociedade normaliza a aposta como forma de ganhar dinheiro ou até como trabalho virtual, há algo profundamente errado. Por isso, é urgente repensar os valores que estamos a transmitir -especialmente às gerações mais novas- e compreender que, por trás de cada aposta feita com um clique, pode estar alguém a perder muito mais do que dinheiro. Pode estar a perder a esperança, a dignidade… e, porque não dizer a própria vida.

A sociedade, o Estado e as próprias empresas de jogo têm uma responsabilidade enorme neste tema. É urgente criar mecanismos de controlo, garantir apoio psicológico acessível e promover campanhas que mostrem, de forma clara e honesta, os perigos que o vício representa. O jogador compulsivo não é um fraco: é alguém que precisa de ajuda, compreensão e orientação.

Mas não basta apontar o dedo às instituições, a responsabilidade é de todos nós.

E tu, jovem, adulto, ilustre ou anónimo, independentemente da tua idade ou estatuto social, também tens um papel essencial nesta luta. Tens o dever de te proteger, de pensar antes de apostar, de não deixares que a ilusão do lucro fácil apague o valor da tua dignidade.

O jogo promete liberdade, mas muitas vezes aprisiona; promete felicidade, mas rouba a paz.

 Evita cair na armadilha disfarçada de oportunidade, porque nenhum ganho justifica a perda da tua tranquilidade, da tua honra ou da tua vida.

Por: Edgar Magalhães (edgarwilsonlcg03@gmail.com)

Leia:

Revista Uphile 1ª Edição

Revista Uphile Marca Presença no XIII Festival das Estrelas do Lago

UniRovuma Promove Mesas-Redondas no Âmbito das Celebrações do Dia da Cultura de Qualidade