O sol poente dourava o campo de jogo de terra batida. A poeira levantada pelos pés descalços assentava lentamente, como um véu sobre a cena. Dois homens, com as marcas do tempo e do trabalho nas faces, conversavam apoiados numa bicicleta enferrujada, símbolo máximo de status noutra era. Em volta, jovens ouviam, como se a ancestralidade lhes sussurrasse aos ouvidos através daquela voz rouca.
“Uwe wa yao uwe”, começou um, cuspindo no chão para pontuar a verdade universal que ia proferir. “Nós, os Yaos. Nós temos razão de vadiar. Imagina: tua mulher tem uma semana de ciclo. Faz um cruzamento três vezes no mês. Nos outros dias, cansaço. Apanha sono como se tivesse estado a lavrar a machamba todo o dia, quando só lavou roupa e foi ao mercado. Ela só te dá três vezes. E tu, homem, o que fazes?”
O outro acenou, num movimento lento e grave de cabeça que era mais do que concordância; era a confirmação de um código. “Procura outra. É ali onde sai xilombalonba.” O termo, “casar consecutivamente”, pairou no ar, pesado e prático. A poligamia ali não era debate filosófico; era logística íntima. Era a solução para a equação do desejo masculino, considerado infinito, e do cansaço — ou da indisposição — feminina, aceite como natural. Os jovens em volta murmuravam aprovação. A lógica parecia, naquele quadro, irrefutável.
Mas a pergunta flutuava, não dita por nenhum dos jovens, mas visível nos seus olhos: e o sustento? E o coração? O homem, porém, já respondia à objeção não formulada. Era por isso que os mais velhos tinham duas, três mulheres. Quando uma não desse, ia à outra, depois à terceira. Uma rede de segurança para o “clímax dos seus desejos”. “Hoje não entendemos este contexto”, disse ele, com um misto de orgulho e lamento. “Eles faziam isso com ciência. Não é esta poligamia de agora, falada sem se palpar a verdadeira motivação.”
E pintou o quadro de um passado maravilhoso, honesto. Um homem, mesmo sem bens, tinha as suas mulheres. Cada uma com a sua machamba, vivendo sem as grandes rivalidades de hoje, onde tudo se mede pelo material. A submissão da mulher era descrita não como opressão, mas como “saída” — um pacto de sinceridade. A mulher sabia: “Estou de ciclo, não estou bem.” E, num acto de reconhecimento quase ritualístico, colocava um pano vermelho ou missangas vermelhas em cima da cama de pau e rede, sobre o colchão de saco cheio de folhas de bananeira. O sinal era claro, respeitado. Nada de romances naquela noite. No dia seguinte, o homem, sem culpa nem conflito, seguia para a outra casa, para “saudar de forma amorosa” a outra parceira. Era um sistema de comunicação íntimo e público, que mantinha a paz e satisfazia o apetite.
“E a paixão?”, atreveu-se um jovem, num momento de pausa no jogo. “O homem não tinha amor? Só queria satisfação?”
A resposta veio rápida, carregada do peso de um mundo diferente. O amor daquele tempo era outro. Não era feito de carícias à luz do dia. Acontecia na escuridão absoluta do quarto, onde ninguém via a cara do outro. “Era tábu”, duro, directo. Por isso, diziam, alguns hoje não sabem o que é um afecto na base de um beijo. Mas o amor acontecia. À maneira daquele tempo.
A conversa seguia, navegando entre as minas da África do Sul, onde os homens emigravam para comprar a tal bicicleta, e os constrangimentos do presente. O narrador justificava: naquele tempo, era necessário ser honesto. Hoje, tudo está distorcido pelo materialismo e pela hipocrisia. “O homem sempre vai ser um vadio”, sentenciou. “Se sente que algo não está bem em casa, sai, vai procurar.” A sua filosofia era crua: a mulher, na cultura Yao que ele descrevia, “não deve ficar na cama só para dormir dias e dias”. É receptora. O homem é provedor — não só de bens, mas de semente — e ela, do acolhimento. O apetite do homem é incansável. “Só repousa na menopausa, isso quando se confirma que o menino já não levanta mais para voos eróticos.”
O silêncio que se seguiu não era de concordância plena, mas de digestão. O jogo recomeçou, a bola rolou sobre a terra. O homem encostou-se à sua bicicleta, artefacto de um mundo que já não existia. A sua crónica terminara.
Mas as perguntas que lançara ao vento poeirento permaneciam, mais complexas do que qualquer jogo. Era aquele um relato nostálgico de uma harmonia perdida ou a racionalização de um domínio ancestral? O pano vermelho sobre a cama era um sinal de respeito ou de uma divisão fundamental dos corpos e dos seus tempos? A poligamia “honesta” do passado, baseada na subsistência e num código partilhado, é preferível à “amantização” clandestina e materialista do presente?
A conversa na beira do campo não respondia. Apenas expunha, com a rudeza de uma faca de machamba, os contornos de uma relação amorosa moldada por necessidades, sinais silenciosos e uma ideia inquestionada do desejo — um desejo masculino apresentado como força da natureza, um rio que, se não encontrar leito numa esposa, irá inevitavelmente cavar o seu curso noutra.
Daniel António Marcos















Excelente texto sobre a nossa cultura que hoje foi substituída pelo msterialismo amoroso.